Dispositivos Pedagógicos

Para uma escola que pretenda, além do currículo tradicional,  desenvolver a autonomia, o senso de responsabilidade pelo bem comum, o respeito ao próximo…  é importante que existam dispositivos pedagógicos que trabalhem de maneira prática estes objetivos, sob  pena de existirem apenas nos planejamentos teóricos enviados às diretorias de ensino. Importante ressaltar que estes dispositivos não funcionam isoladamente, sendo um suporte para os outros. Esta interdependência é bastante salutar pois permite enxergar quando um destes   não esteja  funcional.

Liberdade não significa fazer o que quiser quando bem entender. Este é um conceito, muitas vezes, difícil para um adolescente ou pré-adolescente entender. Os núcleos funcionam como um calibre para que esta compreensão possa ocorrer. A liberdade precisa ser exercida para que cada um compreenda a necessidade dos limites na vida social. As assembleias, os grupos de responsabilidades, as complementares, os estudos autônomos trabalham em conjunto para que o educando  se aprimore tanto  intelectualmente como em seus relacionamentos. Eis um resumo dos 7 principais:

Assembleias

As assembleias são realizadas uma vez por semana. Constituem excelente instrumento para formar a cidadania em vários de seus aspectos: Saber ouvir e saber respeitar as opiniões alheias, exercer protagonismo e propor mudanças, perceber necessidades   para o bem comum, conseguir resolver conflitos através do diálogo e do consenso. Tudo isto requer tempo e paciência.

Os educandos escrevem numa lousa as questões que os preocupam, sejam de natureza organizativa, disciplinar ou pedagógica. São os assuntos da próxima assembleia. A condução da mesma é feita por uma equipe de quatro a cinco alunos escolhidos por eles mesmos. Todos se colocam em círculo e quem quiser falar levanta o dedo indicador, para pedir silêncio levanta-se a mão aberta. Sempre há na mesa condutora alguém que anota a ordem das falas, outro que coordena os debates e outro que anota no Livro das Assembleias as decisões tomadas. Os professores também participam e, quando o assunto envolve especificidades de limpeza, manutenção ou refeitório, os funcionários da área também são convidados a participar.

Núcleos

Em cada Ciclo os alunos são organizados em núcleos, de acordo com seu grau de autonomia, responsabilidade e cooperação para com os estudos e a comunidade escolar. Nas primeiras semanas de adaptação, todos estão no núcleo de Iniciação. Conforme vão demonstrando sua capacidade, são direcionados para os núcleos de Consolidação ou Aprofundamento.

Iniciação – alunos que possuem maior dependência e precisam se reportar aos seus tutores todo o tempo, para planificar seus estudos e decidir o que e como fazer. Não têm autonomia suficiente para organizar sua própria aprendizagem. No Fundamental I, são os alunos em processo de Alfabetização.

Desenvolvimento ou Consolidação – alunos que já têm autonomia para planejar suas atividades com a ajuda do tutor e seguir um horário. Têm mais responsabilidade e aos poucos vão ganhando autonomia, solicitando menos ajuda.

Aprofundamento– alunos que têm maior autonomia de atitudes e aprendizagem. Têm mais liberdade e podem estudar nos espaços que escolherem. Necessitam pouco do tutor e estão aptos a oferecer ajuda aos demais.

Grupos de Responsabilidade

Reunidos em assembleias, os educandos e educadores debatem sobre as necessidades e problemas da escola, eventuais ou não.  Para atender estas demandas são criados os grupos de responsabilidade ( GRs), equipes formadas para ajudar na organização do espaço escolar, no cumprimento de tarefas rotineiras e essenciais para a saúde do coletivo. Assim, há os que rotineiramente fazem a chamada, tocam o sino nos intervalos, dirigem a autoavaliação diária, levam o lixo orgânico, desligam os aparelhos eletrônicos, limpam o refeitório, organizam as escalas de limpeza, coordenam as assembleias…  É importante que os pais estejam plenamente cientes de tais tarefas e percebam o papel que as mesmas têm no desenvolvimento de responsabilidades e  na noção de pertencimento a um grupo social!

Complementares

Não se pode negar a importância de componentes curriculares tradicionais como a Matemática, Português, Ciências e, nestes, regra de três, porcentagem, um texto argumentativo bem elaborado, a compreensão do ciclo da água… Mas não é só em sala de aula e de maneira meramente expositiva que estes temas podem ser compreendidos e assimilados. A necessidade de usar  a proporção se faz presente numa oficina de culinária ou marcenaria, as nuances de significado de uma palavra são exploradas numa aula de teatro; numa aula de circo ou taekwondo  é possível conhecer melhor o próprio  corpo.

As aulas complementares cumprem também outro objetivo fundamental: elevar a autoestima!  É raro ser ótimo em tudo e, se um educando tem dificuldades em matemática, por exemplo, há, certamente, uma área em que ele se sobressai. Oferecer um leque maior de possibilidades cognitivas permite que a excelência  inesperadamente se revele. Ao descobrir-se ótimo  nisto, o educando percebe sua capacidade de também ficar bom naquilo! A escola Pandavas oferece diferentes matérias complementares conforme a disponibilidades de seus educadores, muitos deles também pais de alunos. Xadrez, circo, capoeira, culinária, marcenaria, taekwondo, desenho têm sido as mais frequentes.

Estudos Autônomos

Para desenvolver autonomia, é necessário praticá-la. Os módulos de estudo visam cumprir este mister. São feitos para englobar diversas disciplinas, embora em alguns predominem temas de Geografia, História ou Ciências. O ponto de partida é uma  “pergunta-tema “  que o estudante precisa responder apenas com seus conhecimentos prévios.  Eis dois exemplos: “Como as características de um lugar influenciam as atividades humanas?” e “ Quando se fala em Revolução Industrial, o que você imagina?” .  Seguem outras perguntas  direcionadas e relacionadas ao tema bem como sugestões de atividades. O educando então deve consultar diversas fontes em busca das informações. Os tutores e professores orientam sempre que necessário.

Uma fase importante neste processo é saber checar a confiabilidade das fontes e procurar diversificar as mesmas. O tempo para terminar o módulo é estabelecido junto ao tutor ou mesmo em assembleia. Ao final, já com o conhecimento adquirido, o aluno deve novamente responder a pergunta-tema. Esta resposta é levada em conta para sua  avaliação. Além disso, o educando faz uma apresentação sobre o tema ou sobre uma parte deste, geralmente em mídia digital para o restante da escola, o que resulta numa espécie de “aula-magna” para todos. Esta apresentação também é considerada para a avaliação final do educando.

Seguindo o mesmo procedimento, é possível também o módulo livre, em que o estudante escolhe o tema de seu interesse, elabora junto ao tutor um roteiro de pesquisa e apresenta o tema escolhido para todos os colegas.

Tutoria

O tutor realiza papel fundamental  como amálgama destes dispositivos. Cabe a ele destinar atenção não apenas ao desempenho acadêmico de seu tutorado mas também às relações deste com os colegas, com o corpo docente e também com a família… e como estes relacionamentos afetam sua vida escolar. O contato e parceria com a família é importante para estabelecer vínculos e, em conjunto, saber e estabelecer limites e responsabilidades, fator que, muitas vezes, a família ou o tutor, sozinhos, não conseguem. O tutor precisa olhar atentamente a autoavaliação de seu tutorado e suas atitudes nos grupos de responsabilidade e, a partir daí, estabelecer diálogos que permitam melhor desempenho atitudinal, procedimental e acadêmico. Pode e deve, além disso, encaminhar dificuldades específicas a outros professores e/ou mesmo educandos que já tenham superado tais dificuldades.

O tutor precisa ter ainda sensibilidade para perceber o ritmo de aprendizagem de seu tutorado, orientando-o nas pesquisas e desafiando-o a superar seus limites.Cabe-lhe analisar semanalmente, junto a seu tutorado, a ficha de autoavaliação, debatendo cada item desta, observando se o tutorado está no núcleo devido ou se cabe alguma mudança, sempre com o objetivo de melhorar as próprias atitudes e desempenho.

Autoavaliação

A autovaliação é componente importante ao se considerar a avaliação como um todo. No Pandavas, ocorre de três maneiras. Diariamente,  ao fim de cada módulo e semanalmente junto ao tutor. No primeiro caso, ao final de cada dia letivo, um integrante do Grupo de Responsabilidade da Autoavaliação reúne todos os outros alunos e registra numa tabela própria as atitudes de cada um naquele dia: se veio de uniforme, se fez  tarefas, se atrapalhou de alguma forma as atividades…e cada um responde conforme sua consciência. Acontece, às vezes, de os colegas questionarem tais respostas com argumentos convincentes e o autor da mesma modificar seu conceito.  Já no final de cada módulo estudado, o aluno avalia seu empenho e desempenho, procurando destacar as dificuldades encontradas, conceitos não compreendidos e até problemas de relacionamento que tenham afetado seu desempenho. Trata-se de um dispositivo vital para que o educador e/ou tutor possa também avaliar seu próprio empenho e rever as abordagens utilizadas. Nesta ocasião, o educando pode também avaliar aspectos organizativos da escola como um todo, com críticas e sugestões de mudanças. No terceiro modo, durante o encontro semanal do tutor, o educando preenche uma ficha que avalia  aspectos atitudinais e procedimentais relativos à semana anterior. O tutor pode, neste caso, ajudar seu tutorado a refletir sobre as atitudes passadas.